quinta-feira, 31 de maio de 2007

é grande pra caceta, mas eu sou um anti-cibernarrativas....
GIGOLANDO

Um quarteirão sujo e degradado. Alguns dizem ser uma região nobre aquela que abriga a barulhenta esquina entre as ruas Rio Grande do Norte e Santa Rita Durão. Para mim, um morador que não conhece a noção de lar a não ser dentro daquele perímetro, de nobreza, não vejo mais nada. Apenas os nostálgicos sopapos suaves de uma infância de peladas na garagem do vizinho e picolés de tutti-frutti na padaria da esquina.

Decorada com um gigantesco revólver tosco pichado de vermelho, é lá pelas horas do caos crepuscular que a padaria fica mais lotada. Na briga por uma satisfação tabagística, acotovelo-me na fila do caixa entre policiais montados – que, com seus animais estacionados, preenchem o ar do Bairro de perfume do campo –, alguns vizinhos conhecidos e outros forasteiros que nunca estiveram tão gordos à minha visão. Algo que um bolovo não pode, mesmo, resolver.

Na saída, um olhar de soslaio por sob o revólver artístico, e ali está mais uma vez aquela figura escusa, sentada sobre o para-chão, revolvendo discussões com outra figura que meus olhos não podem precisar. Incrivelmente, não há ninguém por ali, além de nós dois. O velho de barba por fazer e cabelos desgrenhados (me fez lembrar um velho professor de música, que dizia não existirem filhos de putas chamados Júnior e/ou mendigos carecas), continua a travar uma interessante discussão com a parede de mármore. Um transeunte desavisado passa exatamente na hora em que a figura se refere aos “grandes gigolôs estáticos”. Eu, um pouco mais afastado, fico tentando compreender como é possível tal anacronismo entre um mendigo que não possui um interlocutor numa hora e num lugar tão caoticamente habitado quanto aquela minha esquina. Com certeza, há alguém para receber seus perdigotos. E, com outra certeza, o fato de eu não o enxergar deve ser problema de inteligência.

Resolvo oferecer um cigarro, aquela velha ladainha de “o senhor aceita um cigarrinho aí sou aqui da região e vejo sempre o senhor aí sentado conversando mas não consigo ver com quem o senhor tanto fala”. Um frio “obrigado meu jovem”, acompanhado, é claro, do cigarro aceito, me deram um pouco de coragem. “Qual o nome do senhor?”, Heródoto responde, um pouco cabreiro. Mais uma tentativa, e olha que eu só tento três vezes: “poisé seu Heródoto, eu vi o senhor falando de gigolôs aí, e esse é um assunto que me interessa muito, já que meu pai foi um gigolô, meu avô era um gigolô e todos os primos do meu avô tinham algum puteiro em alguma cidade aqui perto”. Um olhar de surpresa, e a pergunta:

- E você, é um gigolô também?

- Não, eu não tenho vocação pra essas coisas não. Mal consigo segurar uma, imagina várias.

Sento ao seu lado. Heródoto continua a fitar fixamente os faróis de lava que jorram dos automóveis estáticos. Alguns momentos de hesitação, uma olhada pro lado e “é, Jeremias, o garoto gosta do assunto”. Suspiros. Um sinal de que tem alguém ali naqueles 12 centímetros entre Heródoto e a parede de mármore. Respondo, feliz, alegre, como um CDF aceito temporariamente por um grupo de punks. “Jeremias, é o nome dele? Mas eu não consigo ver, será que só pessoas inteligentes conseguem ver?”. Talvez, ele diz, o Jeremias é um pouco tímido e por isso gosta de se esconder por trás dos olhos de quem não conhece. Mesmo assim, se eu o conhecer, ele vai continuar a se esconder, pois sou uma autoridade no assunto que mais lhe interessa: Gigolôs.

Heródoto me explica, calmamente. Diz que frequenta aquela esquina há mais ou menos 10 meses. Fica ali de dia, e um pouco de noite, depois vai pro albergue onde pode tomar banho e comer sopa. Só alguns dias. Outros, perambula pela cidade atrás de “mé pra alimentar o cerebelo”. Ali, na padaria, os guardas não mexem com ele, os donos lhe dão café, pão velho e os fregueses cigarros, e ele pode muito bem continuar conversando com Jeremias. Mas, e Jeremias?

“Jeremias eu conheci quando era menino jovem lá nos lado do Maracanã e tinha que bater roupa todo dia na água salgada. A gente acordava seis e meia dez e meia pras três e aí vinha manter a situação do corpo de marinheiros do governo. Às vezes, saía um navio pro Amazonas e eu só via Jeremias 3 meses depois. Às vezes ia eu, às vezes ia ele, nunca os dois. Lá, era só cachaça e mulherada boêmia caindo de pau

Um tempo aí, Jeremias conheceu uma bela mulher objeto dos cantos do Pará. Falou que ela tinha dado pra ele maior insatisfação na vida de largar e chamar de vagabundo, dizer que mulher era pra rodar e conhecer os outros e depois dá tchau e ir caçar rumo noutro canto. Voltou pros Maracanã cheio de buracos embaixo dos óio e começou a maquinar uma companhia pra nós dois tocar.

Acho que Jeremias era que nem tu, Jeremias tinha pai, avô, bisavô, bisneto e as tias tudo no ramo do gigolô. Conseguiu emprego numa nave daquelas que vão pelas águas salgada levando umas caixa gigante de arroz milho e fubá pra China, e foi-se embora. Aí despois eu continuei lá na pedra pelada da água salgada um tempo ainda, mas já tinha ficado com a tentação no cerebelo pra gigolar demais. Então, caí nos mé e o chefe deu tanto tapa na minha cara que eu tive que sair com o rabo entre as perna num buraco de rato cheio de ratoeira. Aí eu fui andando até aparecer aqui. Aqui e ali, lá em cima nas praça, onde o povo dá pinga e dinheiro pra gente pingar mais. Aí teve um dia que tava passando aqui na padaria atrás dum fumo e Jeremias tava sentado aqui, cheio de prosa no papo. Uns anel de latão, uma roupa toda cheia de brilhantina, fiquei curioso e vim falar. Tamo aqui.”

Eu também tinha ficado curioso e vindo falar. Mas e aí, Jeremias voltou, da China, pros cegos e surdos. Heródoto discorreu sobre intensas experiências de Jeremias nas “casas de fumo e mulé”, onde conseguiu atingir o status de gigolô mestre ao vencer o dono numa luta de espadas. Até onde a memória me lembra, só faltaram pedaços de rim voarem pela boca de Heródoto. Jeremias devia ser um grandioso açougueiro.

“Jeremias continuou a crescer com as loja dele de muié e depois já tinha tomado o Japão a China e a Tailândia e as mulher tudo ali eram suas. Rodava as muié pros outro, e elas gostavam que era coisa de doido. E Jeremias só enchendo o bolso de trocado e muié e cachaça e fumo. Aí depois ele resolveu voltar na nave dos caixote, mas já era grande demais pra ter que pagar. Colocaram ele lá de graça e depois de tacar os gaivota na água salgada voltou e pegou as muié tudo. Ficou dando volta no mundo vendendo elas tudo quanto é coisa pras regata e os porta-avião que vinham fazer visita de homem seco pra ela no mar. Mas aí teve um pobrema. Jeremias começou a ter aquela queda de banguela que a gente tem na água salgada despois de muito minuto, e as velha ficaram velha, e a nave de caixote afundou e ele teve que vir nadando até aqui.”

Nadar até ali era impossível. “Nada, jovem, ele só foi nadando aí passou a China, a África, os Estados Unidos e aí chegou aqui pelo Arrudas mesmo. Mas ficou com tanta vergonha de voltar pra pobreza que resolveu se esconder dos outro. Num é Jeremias?”

Um pouco assustado pelos devaneios de Heródoto, acendi outro cigarro, e levantei-me para ir antes que o frio congelasse a minha espinha. Jeremias continuava escondido, mas Heródoto, mesmo visível, parecia mais ininxergável que o gigolô cosmopolita. E Heródoto, nada tinha a ver com o mundo dos gigolôs?

“Ah, sim. Gigolô. Eu sou um gigolô, sempre fui e sempre vou ser. O mundo é um puteiro, e alguém tem de cuidar dele. Eu sou gigolô dos homi, das mulé, das criança e dos cachorro. Mas de você não jovem, você já tem gigolô demais na sua família.”

Quem me dera, seu Heródoto, quem me dera...

4 comentários:

marú disse...

grande, heim?

Anônimo disse...

It is a pity, that now I can not express - I hurry up on job. I will be released - I will necessarily express the opinion.

Anônimo disse...

La ringrazio per intiresnuyu iformatsiyu

Anônimo disse...

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