segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Pedra Branca


NOMADISMO

O nômade não tem pontos, trajetos, nem terra, embora evidentemente ele os tenha. Se o nômade pode ser chamado de o Desterritorializado por excelência, é justamente porque a reterritorialização não se faz depois, como no migrante, nem em outra coisa, como no sedentário (com efeito, a relação do sedentário com a terra está mediatizada por outra coisa, regime de propriedade, aparelho de Estado...). Para o nômade, ao contrário, é a desterritorialização que constitui sua relação com a terra, por isso ele se reterritorializa na própria desterritorialização. É a terra que se desterritorializa ela mesma, de modo que o nômade aí encontra um território. A terra deixa de ser terra, e tende a tornar-se simples solo ou suporte. A terra não se desterritorializa em seu movimento global e relativo, mas em lugares precisos, ali mesmo onde a floresta recua, e onde a estepe e o deserto se propagam.

(Gilles Deleuze Félix Guattari "MIL PLATÔS" Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 5)

Videoclipe da música "Feijoada polifônica".Uma produção Tamago.Music video from song "Feijoada polifônica".A Tamago production.Direção e cinematografia (director and cinematographer): Cauê UedaCâmeras (cameras): Cauê Ueda, Graciela Martins, Luiz Fernando AmoaseiMontagem (editing): Márcio LeitãoMixagem e masterização (mixing and mastering): Paulo AssisProdução executiva (executive production): Cauê Ueda, David ContrerasPerformance: Laíz LatenekGravado ao vivo no Teatro Municipal de Santo André, em 2007.Recorded live at Teatro Municipal de Santo André, in 2007.
Links:
Oxi,
Arte + Espiritualidade + Contemporaneidade
Namaskar!
Baba Nam Kevalam!

Um comentário:

Gilles Deleuze disse...

09/02/2007
Chill-Art: Música e Filosofia
Luciano Sallun é músico, compositor e produtor, seus instrumentos são o sitar e alaúde entre outros instrumentos étnicos, em alguns projetos como Pedra Branca, Liquidus Ambiento e GEM (apenas com instrumentos inventados).














Arte e Filosofia sempre caminharam juntas na História. Não é para menos: a Arte vai à essência das idéias filosóficas sem precisar de uma palavra. É por isso que filósofos contemporâneos como Gilles Deleuze e Felix Guattari, bem como o próprio Nietzche, freqüentemente focalizavam a análise de expressões artísticas.

Para iniciar, analisemos a idéia de ritornello, ou repetição. O que nos faz perceber a música são, basicamente, o silêncio e a repetição. No entanto, é preciso notar que a repetição de que estamos falando é a repetição do diferente, nunca a repetição do mesmo, ela oscila nesses dois extremos. Para ilustrar, tomemos como exemplo a música pop: de modo geral, ela cai numa repetição igualitária das mesmas idéias musicais, frases instrumentais, harmonias e letras - sempre. Em contrapartida, compositores como Philip Glass e Steve Reich estudam e exploram conceitos minimalistas que possuem o poder de resolver a repetição de maneira sutil e ao mesmo tempo profunda, nos detalhes teóricos músicas e arranjos de suas obras. Isto pode ser observado no álbum “Another Look at Counterpoint”, de Steve Reich.

Ao pensar na repetição do diferente, estamos em devir, ou seja, em fluxo. Estamos direcionados pelas intensidades, e não por marcas ou modelos. Segundo Nietzche, somos “vontade de potência”, potência em devir – afinal, se todo devir é sempre criação, estamos no processo da Arte, pois Arte em si (no caso, música) é criação. Quando se sujeita a marcas ou modelos, a Arte deixa de ser Arte para se tornar produto ou teoria científica, o que vem a ser tudo o que a indústria cultural de massa (ou mesmo as academias universitárias) se propõe a fazer. Para tanto, os processos singulares são fonte de forças ativas na vida, na afirmação da vida e na criação artística.

De acordo com a socióloga Suely Rolnik, os processos de singularização “são uma maneira de recusar todos esses modos de endocodificação preestabelecidos, todos os modos de manipulação e telecomando, recusá-los para construir, de certa forma, modos de sensibilidade, relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade, produzam uma subjetividade singular”. (Guattari e Rolnik, Micropoliticas, 1986)

Para o sociólogo francês Alan Touraine, vivemos num período em que estamos saindo da modernidade para seguir para uma sociedade desmodernizada, onde as identidades se dissolvem nos fluxos das informações da globalização. Tal fenômeno desenvolve-se sob dois comandos: o da identidade única, global, percebida em todas as formas de enquadramento do sistema capitalista, tal como os consumos americano e europeu impondo seus costumes e culturas para os países em desenvolvimento; ou o da abertura para a unidade múltipla, a singularidade e a afirmação da diferença.

A analogia com a música se torna inevitável quando falamos desta categoria de criação artística. A música é fruto de uma criação singular, mas na maioria das vezes apenas repercute tal singularidade; nestes casos, deixa de ser criação singular. As inúmeras tendências dentro das músicas eletrônica, rock ou rap, por exemplo, mostram que alguns artistas criam e os demais repetem os modelos criados. Quando falamos em criação, não pode haver modelos. Os rótulos, por sua vez, não dão conta da criação, pois não são capazes de cristalizar os fluxos sonoro-musicais a serem explorados, posto que estes se perpetuam pela intensidade e não por marcas ou traços estilísticos de rótulos musicais. No entanto, isto pode funcionar na moda ou nas tribos urbanas, já que a procura é pela igualdade, pela oposição da outra tribo urbana ou moda, forças reativas que não criam, mas repetem modelos.

Tudo reside no campo social da subjetividade. A música é totalmente subjetiva, e se manifesta por afetos e expressão criativa. Sobre tal processo de subjetividade social, Guattari intervém da seguinte forma: “O modo pelo qual os indivíduos vivem esta subjetividade oscila entre dois extremos: uma relação de alienação e opressão, na qual o indivíduo se submete à subjetividade tal como a recebe, ou uma relação de expressão e de criação, na qual o indivíduo se reapropria dos componentes da subjetividade, produzindo um processo que eu chamaria de singularização” (Guattari e Rolnik, Micropoliticas, 1986)

Na Arte vivemos o eterno retorno. Cria-se e, quando a criação retorna, está sempre diferente, pois está sempre em movimento. Não importa os traços estilísticos ou a moda: as forças ativas sempre criam, junto ao fluxo, com as intensidades que nos atravessam – sons e afetos, em devir.

"Dirigimo-nos aos inconscientes que protestam. Procuramos aliados. Precisamos de aliados. E temos a impressão de que esses aliados já existem, de que não esperam por nós, de que há muita gente que está farta, que pensa, sente e trabalha em direções análogas: nada a ver com moda, mas com um ‘ar do tempo’ mais profundo, no qual se fazem investigações convergentes em domínios mais diversos".- Deleuze e Guatarri, 1986.
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19/03/2007
Chill-Art: Agenciamentos no devir som
Luciano Sallun é músico, compositor e produtor, seus instrumentos são o sitar e alaúde entre outros instrumentos étnicos, em alguns projetos como Pedra Branca, Liquidus Ambiento e GEM (apenas com instrumentos inventados).








Foto - Alexandre Takashi

Forças ativas ancestrais na imanência da vibração cósmica. Criação e experimentos dos sons flutuam na brasilidade, que é a própria unidade múltipla dos povos que não se uniram, mas se misturaram e geraram esta povoação desterritorializada – a cultura em eterna formação, o desterritório ancestral em pura potência, raízes de todas as terras. No xamanismo e no sufismo é o círculo: os rituais vivem até hoje nas sociedades tribais e urbanas, tradições e pulverizações juntas no devir proto-histórico.

Ter medo é não se misturar e os sons sempre se misturam, mesmo capturados pela fábrica de subjetividade social capitalista. Já o som, vibração de moléculas no ar, escapa sempre, e se a música, a arte, está no fluxo, na superfície lisa, é então a própria vibração molecular artística, nos afetos do pensamento nômade. Ele sempre escapa desta engenhosa sutileza de trabalhar com a subjetividade social no sistema maquínico.

A desconstrução da linguagem (palavra de ordem) e a afirmação da telepatia e sensibilidade não-lingüística das percepções atravessam, em devir, os encontros, buscam os timbres, que são as cores sonoras, e intensificam o corpo sem órgãos na pluralidade e na afirmação da diferença. Estão nos improvisos cósmicos que só o acaso realmente afirma na sua mais forte potência.

Os agenciamentos sonoros em movimento são o que se passa sem público ou platéia, mas com agenciamentos na subjetividade, na afirmação dos mundos sonoros, matéria e espírito juntos – sem transcendência para outro mundo superior, mas com a transcendência do mundo reativo, que seria a pura superfície da vida. Criando atmosferas propícias para vida, sem medo, e ao mesmo tempo na corda bamba, a linha de fuga, que seria a criação de experimentações na vida, na arte de sonorizar afetos e devires.

As moléculas vibram no ar, fluxos sonoros habitando superfícies lisas e permitindo linhas de fuga do adestramento midiático elaborados pelas instâncias dos poderes. Os afetos sonoros são capazes de alterar estados de consciências, pois saem da consciência e vão para superfície, os sons enquanto acontecimento seria a própria superfície, novas e fascinantes percepções são ativadas, a linguagem é destruída abrindo-se fendas para o acaso habitar realidades e afirmar todas as diferenças universais na sua mais sublime beleza.

“Nesse mundo de cavernas, de dobras, de rupturas, de reconstruções, o cérebro humano se dedica a compreender, antes de mais nada, sua própria transformação, seu próprio deslocamento, para além da conflitualidade, nesse lugar em que reina a mais alta abstração. Mas essa abstração é novamente desejo”. “(Gilles Deleuze, 1980)

Mais infos: http://www.lucianosallun.com.br
http://psyte.uol.com.br/redacao/lista_coluna.asp?materias_areas_subareas_seq=8&subarea_descricao=Chill-Art